terça-feira, 4 de julho de 2017

O Motorista


Eis que, pegando o 21,em direção ao Rio Comprido, noto a cordialidade do motorista com o aluno, da rede pública , que acabara de adentrar o coletivo! Ouvido ligado na conversa alheia, pude presenciar o prazer do condutor ao incentivar o estudante a ir à escola e almejar um futuro melhor.  Chegado o destino do aluno, após o mesmo descer,  o motorista vira para mim e revela:
- Tem um colega que não gosta de levar estudante.  Outro dia, sua filha foi assaltada e tomou até tapa na cara.  Falei pra ele que isso pode ter sido algum estudante que ele deixou de levar, em algum momento,  nesses trinta anos de trabalho.  Eu faço a minha parte.  Pode ser pouco, mas contribuo como posso.

Só pude cumprimentá-lo depois,  calado e reflexivo, após bela lição de cidadania.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Reflexo


Olho no espelho, vejo meus olhos de desespero. A imagem não reflete, o bolso sem dinheiro. As palavras que em engolem, me filtram e consomem, me tirando de um mundo real, refúgio meu, fuga minha. Horizonte sem saída, com os cachorros que fogem e cães que ladram e não mordem. Fim de um ciclo, processo de reconstrução. Olho no olho meu, eu não enxergo eu, ou melhor me enxergo querendo saber para onde olhar. Uma entrada, uma saída, calma, amanhã vou lhe pagar. A conta chega e não fecha. Simples assim. Não sei onde parar. Paro! Olha o jogo, vejo a situação. Poucas pedras no tabuleiro, pouca opção. Inerte! Qualquer movimento parece perigoso demais. Ir e vir, nem pensar. Para entrar e sair você tem que pagar. Pago pra olhar a lua, pra cantar. Ganho tapa nas costas, um soco quiçá. Mundo invertido, a amiga perde a vida para um cruel bandido, dentista louco, mundo em que com poucos podemos contar. O som do teclado, rareia a energia, pego emprestado para falar até a hora tardia. Escrevo, escrevo, escrevo, escrevo. Fujo como um louco procurando me encontrar. Como um cão atrás do rabo, animal abandonado, que não sabe onde está. Olho no espelho, mergulho dentro de mim, caio na piscina vazia, de cara no fundo, tendo que levantar. Olho! Me escondo de mim! Olho!Olho! Olho no olho! Olho!      

Quereres

Se eu fosse procurar um tema para esse começo de programa, “O quereres’ de Caetano me serviria de inspiração, no paradoxo do que tu queres para o que tu desejas, na briga que o tu almeja, inicia-se uma conflituosa relação. Eu quero suco e cerveja, ela ensina a dizer não. Esse dilema entre ser boêmio e ter a vida saudável vem de longa data. Entre idas e vindas, entre ganhos e perdas, mais perdas com ganhos de uns quilos aqui, outros tantos ali, uma balança que tende desproporcional, onde é mais fácil barganhar a quebra de regra apenas visando o prazer total! O que seria de fato esse prazer? E ela pergunta qual o quereres que tu queres para ti? E como o que tu queres para dizer não ao que tu não podes mais querer. Queres ser o ser profano, beirando ao insano, numa insaciedade que tu não podes mais querer.


O programa enfrenta sua primeira roda de samba e eu na dúvida do quero e do poder. Um conflito do que se é para o que quer ser ou voltar a algum lugar onde se foi, mas que o imperfeito do pretérito mais próximo acena não poder deixar para depois. A cena é essa: a mesa tem cerveja e cachaça, e as garrafas d’água se acumulam aos meus pés. Não me prendem. Sigo inebriado com o toque da música, a energia que me contagia, olho no olho, não deixo para depois. A caipirinha vem sem álcool, limão e morango, prazer a dois, sem estimulante, a coisa flui natural, não precisa deixar para depois. Digo um não, conto até dois. Viro a cara, olho. Até me deixo seduzir, mas e depois? Conto o três! Desce uma água! E o jogo segue olho no olho, uma noite se foi.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Devaneio

Nos meus caminhos, onde vou devaniando, me aproximando e afastando de uns e outros, muitos passam e sou passagem em alguns. Perdido, procurando um caminho em vida, acho um e outro e vou pinçando. Como um cigano, vejo-me longe da vida de todos, mas muito perto da minha. Cercado de muitos, sinto a falta dos poucos que hoje escolhi estarem longe de mim. Mas estes são alicerces passados e futuros, que no meu presente, ajudam-me a montar os frutos da minha árvore bibliográfica, bem enraizada, mas repleta da podridão minha, que cai ao passar do seu tempo e vai me desnudando a cada queda, para transformar-se e criar ao meu redor, uma floresta das personalidades diversas que me cercam, mas que pelo seu enraizamento não podem perto de mim chegar. Mas nosso contato visual já acalenta. Os pássaros misturam nossas essências. E quem sabe, com o passar do tempo e o nosso crescer, nossos galhos, lá em cima, venham a se tocar, nos mostrando um novo ecossistema interior, diferente do simples passar por aqui. Minhas andanças nem sempre são calmas, pelo contrário, turbulentas em grande parte, mas essa inconstância faz parte de mim. O cerne do meu mar é revolto, me causa tormentas e atormenta. Às vezes, minha maré aparenta calmaria, se retira, mas, como um tsunami, surpreende, causa dor, passa causando desastre devastador e afasta quem gosta de mim. Mas sou assim. Não escolhi, apenas sou. Por isso, mesmo longe, quero vocês aqui.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Cartunista do Cotidiano

Sabe quando você olha e tudo parece vazio? As pessoas criam expectativas, lhe impõem uma carga que não parece pertencer a você. Não bastando as frustrações que os erros normalmente causam a nós, carregamos ainda o peso que os erros trazem para os outros, como se fossemos simplesmente egoístas, sem entenderem que nem tudo está sob nosso controle.

Primeiro observam! Estão ali, a espreitar uma possibilidade, sacar se vai rolar uma oportunidade para ali se instalar. A mão sempre recolhida. O passo, sem andar para frente, com a cara escondida, querendo que o outro disponibilize, viabilize e afaste qualquer tipo de crise que possa oferecer mesmo diante da inércia deste outro ser.

O louro é para todos, a derrota é de quem a provoca. Não adianta boa intensão, sem oferecer aquele tostão para quem está encostado, segurando o barranco para não cair. As oportunidades são para todos, os erros são por todos apontados. Reféns das críticas a si que refletem melhor no outro, espelhos de si mesmo, uma simples caricatura.

sábado, 28 de maio de 2011

É difícil ter noção da relação entre o homem e a vida. Na verdade, a gente vive, mas não se dá conta, que em um segundo, aqui, você não mais se encontra. Se ver diante de perdê-la, quase a mercê da vontade de algo maior que você, nos faz inerte, a vida passa em um flash, com sentimentos que não dá para descrever. O padecer, felizmente, não descobrí. Mas o poder sair e dizer que estou aqui , num primeiro instante parece um assombro. As lembranças um tormento e ensinamento.

terça-feira, 22 de março de 2011

Escorreguei, uma saliência, um pulo, retomo a base e afundo. Desço sem mais ser dono de mim. Rodo. Sou virado do avesso. Desvirado. Neste momento subo, mas na verdade desço. Não sei mais onde estão o fim e o começo. Reajo, sem ter como reagir. O instinto me faz parecer um ser irracional, que tenta se defender. Enfim, acredito estar dono de mim. Mas no fundo não é assim. A água sacode se rindo toda, rindo de mim. Levanto a mão, uma pedra na contra-mão. São apenas seis segundos, mas parecem a eternidade do findar de uma etapa nesse mundo. Volto para o meio revolto. Sou cuspido. Guiado e vejo um espelho. Me vejo. Incrédulo em mim mesmo. Me creio. A água me devolve aliada ao movimento das pernas. Parece ter sentido pena de mim e me devolve o corpo que já era dela. A cabeça emerge desnorteada, trazendo junto o resto do corpo, batizado, “desmorto”. Só me resta subir de novo.